A NATUREZA DA VOZ CANTADA
A voz, como fenômeno sonoro físico, é definida assim por Johann Sundberg: “Som complexo, formado por uma freqüência fundamental (determinada pela freqüência de vibração dos ligamentos vocais) e um grande número de harmônicos ou sobretons.”
Assim, segundo esta definição, o som a que chamamos “voz”, no seu aspecto fundamental, é determinado pela vibração dos ligamentos vocais, isto é, das cordas vocais. Ora bem, e aqui reside um dos aspectos essenciais da questão: que é que determina a oscilação das cordas? De que maneira é que elas o fazem? Como se produz, em suma, o fenômeno da voz e, mais concretamente, da voz cantada?
A mecânica da voz. Para que o efeito descrito se produza, é necessária a intervenção de duas forças antagônicas: uma coluna de ar ou impulso energético e uma tensão muscular que lhe oponha resistência, desenvolvendo a energia correspondente. Aquele impulso é determinado pela atuação dos pulmões, elementos autenticamente motores, e pelo sistema muscular, que contribui para que as funções respiratórias funcionem corretamente na sua dupla fase de inspiração e expiração; é esta última que, sob a pressão dos músculos abdominais e do diafragma, leva o ar (sopro), pela traquéia, a chocar com as duas cordas situadas na laringe. Depois, a coluna de ar, convertida em som e amplificada pela cavidade torácica, sobe pela faringe, que constitui o órgão ressoador junto à cavidade bucal e às fossas nasais, e é articulada pelos lábios, os dentes, a língua e o palato. Ou seja, temos um órgão motor: os pulmões; um vibrador-fonador: a laringe; um amplificador ou ressoador: as cavidades torácico-faríngica e bucal e as fossas nasais; e um articulados os elementos contidos na boca. No seu caminho para o exterior, o som ou freqüência fundamental criada pela rápida vibração das cordas, vai sendo enriquecida (recorde-se a definição de Sundberg) pelos harmônicos produzidos nos ressoadores (denominados formantes), que são, por fim, os que conferem à voz uma aparência acústica, uma peculiaridade e um timbre determinados.
O órgão fonador-vibrador. No mecanismo da fonação, a laringe desempenha um papel essencial, embora a sua principal missão dentro do organismo humano seja respiratória. A fonação é, na realidade, segundo as investigações realizadas por Négus, uma adaptação funcional secundária. Situada à altura da sexta vértebra cervical, entre a traquéia e a faringe, a laringe é um órgão constituído por peças cartilaginosas, ligamentos articulares, músculos e mucosa. Os seus elementos fundamentais no mecanismo de fonação são as cartilagens tiróides e cricóides, que formam uma cavidade em cujo interior se encontram as duas cartilagens aritenóides, de cuja contração e relaxação surge o movimento e, por conseguinte, a vibração das cordas, que aparecem imbricadas nelas. Ao nível das cordas situa-se a glote, que adota distintas formas e dimensões, consoante aquelas estejam separadas (inspiração) ou juntas (fonação).
A produção da voz cantada. Vimos que existe um mecanismo composto por diversos elementos. Sabemos que a laringe é o órgão onde se produz o som. Mas como se origina exatamente este efeito sonoro? Como atuam as cordas perante a pressão do ar? As teorias que parecem gozar de maior aceitação atualmente são a mioelástica e a neurocronáxica. De acordo com aquela, resume Venturini, a origem da vibração reside na ruptura periódica do equilíbrio estabelecido entre a tensão dos músculos adutores, determinantes do encerramento da glote, e a pressão subglótica (produzida pelo ar que luta por sair). Isto é, a vibração é um fenômeno elástico. Na segunda, a regulação do processo das vibrações das cordas produz-se, golpe a golpe, devido a impulsos provenientes do sistema nervoso centrai. Desta forma, o som é originado pelo ar ao passar entre as aberturas glóticas produzidas pelos referidos impulsos, não por vibração das cordas, mas sim por um mecanismo que Regidor considera semelhante ao da sereia.
A teoria neurocronáxica adquiriu, atualmente, uma grande difusão, embora não explique o fenômeno nem deite por terra as descobertas da mioelástica ou de outras (ventricular, muco-ondulatória, etc.). O investigador francês Garde, que, com o seu compatriota Husson, é um dos que mais contribuíram para esclarecer este tipo de problemas, afirma: “Como qualquer outro músculo, as cordas contraem-se em resultado da ação nervosa e, segundo se cante ou se fale, as ações de estimulação provêm quer do córtex cerebral, quer do diencéfalo, quer ainda do bolbo.”
Fazendo uma avaliação e um resumo das diversas teorias, Regidor sublinha que, de qualquer modo, “sem uma corrente de ar ascendente não há fonação”, pelo que todos os movimentos, contrações e alterações da laringe são inúteis sem a colaboração da coluna de ar.
Classificação. Tal como no que respeita a outros sons, na voz cantada há que distinguir altura (número de vibrações por segundo ou ciclos), intensidade (energia despendida por segundo) e timbre (composição em harmônicos ou sons parciais).
Esta última qualidade é aquela que define fundamentalmente um som e é, na realidade, o fator que habitualmente se utiliza para classificar os distintos tipos de voz dentro de cada corda. Husson decompõe a noção de timbre em cinco qualidades: cor, volume, espessura, mordente e vibrato. Segundo a cor, as vozes podem ser claras ou escuras; quanto ao volume, pequenas ou volumosas; quanto à espessura, grossas ou finas; quanto ao mordente, timbradas ou destimbradas.
Por sua vez, o vibrato ajuda a determinar a qualidade vibratória de uma voz, o seu maior ou menor apoio, a correta correlação das suas freqüências.
Sem ter em conta outros critérios de classificação menos rigorosos (morfológicos, temperamentais, endócrinos, sexuais, etc.), a forma tradicional de realizar a classificação dos diferentes tipos de voz partiu das características tímbricas apresentadas acima. Assim, nos tempos modernos, estabeleceram-se os seguintes tipos essenciais: nas vozes femininas, soprano, meio-soprano e contralto; nas masculinas, tenor, barítono e baixo. Cada um deles admite, naturalmente, uma série de subdivisões, que, em regra, se determinam com base nos mesmos critérios.
Ora este método de classificação, em que se medem de forma subjetiva as características de cada timbre, não é exato, embora possa ser válido e, em termos práticos, funcione. Por isso, os investigadores procuraram descobrir um método que proporcionasse a necessária certeza. Husson e Garde julgaram encontrar a solução por meio da medição da “cronaxia do nervo recorrente”. Esclareçamos de que se trata.
O cérebro transmite os seus impulsos, as suas “mensagens”, à laringe por meio do nervo recorrente desta, que se desprende do nervo vago ou pneumogástrico na região torácica superior. As descargas elétricas, que se repetem em freqüências de milésimos de segundo, provocam a atividade das fibrilas das cartilagens aritenóides e, por conseguinte, a das cordas vocais que se separam e se unem a altas velocidades.
O tempo que cada impulso nervoso gasta a percorrer um centímetro ao longo de um eixo (eixo ou prolongamento único de um neurônio ou célula cerebral) chama-se cronaxia. Entre um impulso e outro, o nervo permanece em repouso durante um intervalo muito breve, até receber outra descarga. Medindo a freqüência dos impulsos, encontra-se a excitabilidade do nervo recorrente. Descobriu-se que esta duração, expressa em milésimos de segundo, é diferente para cada tipo de voz. Para medir a cronaxia, utiliza-se o chamado cronaxímetro ou tábua de Bourguignon. Deste modo, pôde realizar-se um quadro que contém as freqüências das vozes humanas, fixando-se uma cronaxia de 0,170 para o baixo profundo ou contralto e, no outro extremo, uma cronaxia de 0,055 para o soprano sobreagudo, estabelecendo-se de uma maneira contínua e proporcional o resto das cronaxias e tessituras correspondentes. Isso permite deduzir, como aponta Regidor, que “as categorias tradicionais de classificação estabelecem apenas distinções terminológicas e não biótipos (que não existem)”.
A “passagem” da voz. Trata-se de um problema fundamental. As escolas de canto de todas as épocas e latitudes tentaram solucioná-lo. Regidor define esta passagem como “uma mudança de posição e de sensação na emissão vocal a partir de uma determinada freqüência de som, dentro de um mesmo registro”. Para obter a homogeneidade e fusão de registros ou posições, a voz, que nas notas mais graves da sua tessitura possui uma ressonância “de peito”, tem de mudar, nas altas (segundo as freqüências para cada tipo; normalmente, à roda de 425 a 500), para uma ressonância “de cabeça”, a fim de evitar as sonoridades abertas. Isso faz que a laringe modifique a sua posição e adote uma nova disposição dos seus mecanismos vibratórios. Produz-se, assim, aquilo a que se chama “cobertura a plena voz”, sem que intervenha o falsete (som não apoiado). É uma descoberta relativamente recente, que se pode considerar filha do romantismo. Um efeito que não pertence à escola do bel canto, mais pura, clássica e estrita. Com ela termina toda uma era em que a passagem não implicava cobertura, com intervenção das ressonâncias da faringe, mas em que o problema era resolvido com a técnica do falsete, com a qual era possível produzir sons com uma certa entidade (falsete reforçado). Ou isso, ou continuar a cantar, ao chegar à zona crítica, na mesma posição.
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