A ORQUESTRA MODERNA
O romantismo é uma época em ebulição, de tendências várias e contraditórias, onde cabem as mais diversas posições e as mais exaltadas opiniões. O momento é oportuno para o aparecimento em cena da figura romântica por excelência; um compositor de exacerbada imaginação, um dos homens que mais contribuíram para o desenvolvimento técnico e estético da orquestra: Hector Louis Berlioz.
Depois da experiência de Beethoven, ficam estabelecidas as bases fundamentais para a concepção de uma nova orquestra. A tensão existente entre os meios habituais da orquestra e a força dos conteúdos beethovenianos originariam uma evolução que, como uma conseqüência de causa e efeito, desembocaria na grande orquestra de Berlioz e Wagner, passando por Meyerbeer, Halévy ou Rossini. Na maioria destes autores, encontramos um grande sentido dramático, fruto dessa tensão abrupta que Beethoven legara e em que todos os elementos musicais — do timbre ao mais ponderado domínio da intensidade — intervêm como aspectos fundamentais dessa linguagem. Pouco a pouco, vão-se desenhando as noções ambientais na música; até mesmo nas páginas escritas para piano solista, multiplicam-se as indicações expressivas para criar o clima adequado num noturno de Chopin ou numa balada de Liszt. A música veste-se com roupagens e harmonias novas, com um novo conceito de timbre que, como é lógico, exigirá outros meios mais de acordo com as novas circunstâncias. A música alimenta-se cada vez mais da literatura, e não só no teatro, mas também no concerto: os conteúdos da ação literária darão forma ao devir da música, criando um novo gênero de frutuosas conseqüências — o poema sinfônico. Foi neste contexto que o papel de Berlioz foi capital. Em 1830, apenas três anos após a morte de Beethoven, a sua Sinfonia Fantástica marcou um momento importantíssimo na história musical do romantismo; traduziu um novo pensamento, tanto no que se refere à orquestra como à fonte de inspiração: um tema literário autobiográfico, que será narrado com meios exclusivamente musicais. A orquestra vai, por conseguinte, necessitar de novos timbres (ou de um novo tratamento dos já existentes), de novos matizes e de maior empolamento. Deste ponto de vista, algumas partituras solenes de Berlioz ultrapassam todas as medidas e permitirão explorar os limites da sonoridade. É verdade que tanto o Requiem como a Sinfonia Fúnebre e Triunfal foram escritos para serem executados em ocasiões especiais, nos Inválidos ou na Praça da República, para festejar o décimo aniversário da revolução de 1830, e que estes lugares permitiram ao compositor sondar as enormes qualidades acústicas que lhe ofereciam; no entanto, este aspecto esmagador de algumas obras de Berlioz prejudicou, ao torná-lo caricato, a imagem do compositor. Mas, em Berlioz, há também o músico delicado e sutil, o genial orquestrador que tem plena consciência da sonoridade que manipula e que é sempre a mais apropriada para as suas intenções.
Basta referir o scherzo “A Rainha Mab” da sinfonia Romeu e Julieta para descobrir uma maneira inédita de tratar os timbres da orquestra: a divisão da massa de violinos, a fim de obter uma leve palpitação em staccato, ou a exploração de um clima sobrenatural nos sons harmônicos da harpa em conjunto com o cristal mágico dos pratos antigos.
Resumindo, Berlioz ampliou o papel e a extensão da orquestra. Utilizou, desde as suas primeiras obras, o contra-fagote, o corno-inglês, quatro trompetes, três ou quatro tímpanos (Benvenuto Cellini, Sinfonia Fantástica), o clarinete baixo, quatro harpas e até o piano tocado a quatro mãos. Por certo, em todas as obras de Berlioz abundam os efeitos originais, como aquele sarcasmo do clarinete de requinta na Sinfonia Fantástica ou a utilização de quatro pianos - caso único - em A Tempestade. Sublinhemos, no entanto, alguns processos curiosos, como o uso, mais leve, das baquetas com esponja nos timbales, o ataque nos instrumentos de corda com a madeira do arco (co/ legno), o emprego alargado da surdina nos instrumentos de sopro ou a função desempenhada pela mão ao tapar o pavilhão das trompas, para produzir um som velado e corrigir a afinação. Berlioz estuda exaustivamente tudo isso no seu Tratado de Instrumentação, obra magistral, escrita em 1844, e que é um verdadeiro compêndio de estética musical aplicada, que ainda hoje goza de autoridade.
Contemporâneo de Berlioz, embora dez anos mais novo, Wagner entendeu a orquestra dramática segundo este novo conceito. Na realidade, Wagner aperfeiçoou as principais contribuições do músico francês, adaptando-as ao seu verbo com uma textura mais espessa e um fôlego dramático mais adequado à sua natureza germânica.
A grande evolução sofrida por certos instrumentos vai permitir novas proezas e especulações timbrísticas; poderia quase dizer-se que as novas potencialidades da orquestra nos colocam perante um instrumento colossal, de registros sutis, que já tem muito pouco a ver com a formação clássica do século anterior. Os principais protagonistas destas mudanças serão os instrumentos de metal: a sua proliferação dentro deste organismo sonoro irá conferir-lhes um papel essencial e não, como na orquestra de Haydn, uma função subsidiária. Graças ao mecanismo dos pistões, estes instrumentos permitirão obter todos os sons da escala cromática e participar de pleno direito no contexto orquestral. Este é, sem dúvida, o mais importante melhoramento técnico que o romantismo trouxe à orquestra. A partir de então, ao sentir-se progressivamente liberta, a orquestra aumentou a sua potência e registro.
O total de instrumentos diferentes deu uma maior complexidade à partitura, que, enquanto numa fase anterior contava um número discreto de pautas — cerca de doze —, a ler verticalmente, na orquestra moderna pode conter um número extraordinário, que chega a atingir os quarenta pentagramas simultâneos. A nova potência dos metais exigiu, pois, um novo equilíbrio de toda a massa instrumental, de modo que o número das cordas pudesse compensar o peso do sopro.
Mas aqui surge uma pergunta lógica: se Wagner escreveu para a voz e esta devia fundir-se com a orquestra, como poderia ela prevalecer sobre um aparato sonoro como, por exemplo, o da tetralogia? O tratamento da voz na obra de Wagner tem uma tensão e uma envergadura muito superiores à da ópera convencional; a sua melodia, as suas curvas, a extensão dos seus saltos ajustam-se ao conteúdo da linguagem, quer harmônica quer orquestral. Wagner entendeu a orquestra como um todo unitário e ele próprio — ao preocupar-se com a construção de novos instrumentos de metal para intensificar a magnitude dos seus deuses teve em conta a sonoridade um pouco compensada da orquestra no fosso do teatro.
No drama wagneriano, a orquestra não só comenta a ação mas intervém nela; a técnica do leitmotiv permite reconhecer, por meio de um jogo de símbolos, tanto a presença das personagens na textura instrumental como os seus sentimentos, intenções, pensamentos secretos, de modo que a orquestra se converte, para o espectador, num fio condutor do drama a nível subconsciente. Por isso, o seu lugar é no fosso e é do fosso que o diretor — coordenador de todos os elementos — planifica o difícil diálogo voz-orquestra.
O gênio de Bayreuth soube extrair vantagens dos fabulosos achados de Berlioz. A “Marcha dos Peregrinos”, de Harold na Itália, influenciou a de Tannhäuser e, embora os dois músicos tivessem diferentes inclinações, nutriam um pelo outro respeito e consideração. Também Liszt teve um papel importante neste campo de influências, apesar de a sua obra orquestral, traduzida sobretudo na música programática (sinfonia Dante, sinfonia Fausta, Mazeppa), não ser tão conhecida como merece. Convém dizer também, em abono da verdade, que Wagner retirou benefícios das sábias intuições deste amigo e do seu original sentido do colorido.
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