ESTRUTURA E FUNCIONAMENTO DE UM CORO
O canto coletivo sofreu enormes transformações ao longo de toda a sua história. As suas origens remontam às manifestações rituais primitivas do homem. A música popular — aquela que mergulha as suas raízes na criação das primeiras sociedades humanas — soube conservar o gosto instintivo do homem pelo canto. Para a tradição da chamada música erudita, o canto converteu-se na imagem imitável do natural.
Será difícil delimitar, mesmo a traços largos, quais foram os intricados caminhos que a sua evolução trilhou, desde as épocas recuadas em que se confundiam arte e magia até à contemporaneidade das mais díspares formações corais, mais ou menos divulgadas no nosso tempo. O desenvolvimento histórico do canto em grupo, no campo da música séria ou culta, pode considerar-se paralelo à própria evolução das formas e linguagem musicais do Ocidente. De certo modo, estão reciprocamente relacionados e poderia afirmar-se que, pelo menos até o aparecimento da tonalidade moderna, a segunda está explicitada no primeiro. A supremacia do canto em relação aos restantes meios de produção de som (que poderia explicar-se segundo causas religiosas, políticas, sociais, etc., que é impossível aprofundar aqui) é perfeitamente reconhecível nos dois grandes períodos de organização modal: a monodia e a polifonia.
Aproximadamente nos finais do século XVI (data que coincide com a da progressiva estruturação dos novos princípios tonais), devido à paulatina emancipação da música instrumental, o canto coral terá de se adaptar às novas circunstâncias, tendendo para uma estreita colaboração com as sonoridades dos diferentes conjuntos instrumentais, sinfônicos ou de câmara aparecidos desde então até aos nossos dias. Esta colaboração frutificou em várias formas musicais que, em alguns casos, são a ampliação de outras anteriores, profusamente empregadas pelos mestres da polifonia. Cantatas, oratórios, missas, óperas, e até sinfonias são alguns dos gêneros musicais nascidos dessa colaboração.
Por sua vez, a música coral tratada isoladamente, sem o apoio instrumental, desenvolveu um repertório estável, que se viu enriquecido com as obras de compositores essencialmente sinfônicos (utilizando o termo num sentido muito geral). Assim, o canto coletivo a várias vozes, o coro a cappella (sem acompanhamento instrumental), com as suas origens na infância da polifonia (século X), pôde sobreviver paralelamente à ingente produção de música instrumental. Mas, além do mais, devido àquilo mesmo que lhe dá forma, ao que caracteriza a sua sonoridade especial, dificilmente se prescindirá da música coral. Referimo-nos à voz: um dos elos mais estreitos entre a necessidade interior e a expressão. Convenientemente educada, a voz pode converter-se, por meio do canto, no mais belo instrumento musical. A criação musical não poderá prescindir do cúmulo de sensações e sugestões que nos é dado pelo emprego da voz-cantada.
Ora bem, que é um coro? Qual é a sua estrutura e que relações se estabelecem entre os elementos que o compõem? Quais são as condições requeridas para a sua formação e funcionamento? Antes de respondermos a estas perguntas, temos de sublinhar que, do mesmo modo que as orquestras atuais diferem sensivelmente, na constituição e sonoridade, das formações das épocas barroca, clássica e romântica (para não falarmos dos diferentes conceitos de interpretação), também o coro, na imagem tão familiar com que hoje o conhecemos, dista bastante, por circunstâncias parecidas ou idênticas, do “modo” de cantar dos períodos anteriores.
Digamos, de passagem, que, ao falarmos de coro, do nosso ponto de vista, o fazemos em função da existência de, pelo menos, duas vozes que possibilitam a recriação de outras tantas linhas melódicas contrapostas, já que o canto coletivo, anterior, nos seus fundamentos, à descoberta da polifonia — o canto próprio do estilo monódico —, excede os nossos propósitos, devido precisamente às suas características unimelódicas.
Pode entender-se o coro como o agrupamento de várias vozes para o exercício da interpretação musical por meio do canto. Tal definição alude, sobretudo, à representação físico-sonora do fenômeno humano que é o canto coletivo, mas pouco nos diz sobre os seus pressupostos estético-musicais e históricos. Ao fazermos referência, por exemplo, ao agrupamento de vozes, devemos pensar que a composição numérica de um conjunto coral variará consoante a época e o estilo de que se tratar. A atribuição de um número determinado de executantes corresponde mais às necessidades da música do que a simples razões fortuitas. No entanto, a força subjetiva da criação artística também não pode ser considerada causa decisiva neste sentido. Talvez fosse mais apropriado dar a essas necessidades um significado amplo que abrangesse toda uma escala de valores que, ao se inter-relacionarem, compusessem e explicassem o quadro em que se produzem os acontecimentos artísticos. Por isso, não será rigoroso fazer generalizações neste campo, nem se poderá precisar com exatidão qual foi a evolução interna dos coros. Todavia, admitindo uma certa ambigüidade, poderemos assentar em que o número de cantores das formações corais tem aumentado linearmente, consoante as exigências das mudanças históricas. Assim, no tempo de Ockeghem (1430-1495) a Chapelle-Musique de Carlos VII era composta apenas por catorze cantores. Igual número tinha o coro da Capela Sistina durante o pontificado de Sisto IV e, em épocas anteriores — como a da Escola de Notre-Dame —, o canto contrapontístico era reservado a um reduzido escol de cantores. A escola da Capela Juliana, em S. Pedro de Roma, contava já, cerca de 1578 — sob a direção de Palestrina —, vinte e oito cantores. Para a interpretação de alguns oratórios de Händel foram empregadas grandes massas corais, embora esses acontecimentos constituíssem uma exceção na primeira metade do século XVIII. Por sua vez, Berlioz requeria a formação de grandes coros para a execução da sua música e Mahler exige, na sua 8ª sinfonia, o concurso de um milhar de executantes, entre instrumentos e vozes.
Por esta via se chegou à consolidação dos coros habituais nas nossas salas de concertos. Amplas formações, herdeiras do romantismo, cujas particularidades de densidade e de pujança sonoras as tornam aptas para interpretar a música da qual nasceram. Utilizar um coro com estas características como veículo sonoro da música polifônica é, em princípio, desaconselhável. É preferível reduzir o número de membros ou, melhor ainda, empregar um conjunto vocal especializado (uma vez que não se trata apenas de questões numéricas), a fim de obter a clareza de textura necessária àquela música.
A estrutura interna do coro pode variar consoante o timbre das vozes que o compõem. Daqui resultam as denominações de coro misto (mulheres e homens) e coro de vozes masculinas ou orfeão (só homens — que é o mais corrente — ou, também, homens e crianças, usado com freqüência na música barroca). Atendendo a razões de tessitura, um coro divide-se, geralmente, em quatro vozes: soprano, contralto, tenor e baixo (do agudo para o grave). Estas, que correspondem de forma natural às quatro partes harmônicas, são assumidas pelas vozes de mulher ou de criança (soprano e contralto) e pelas vozes de homem (tenor e baixo). Acontece, por vezes, que uma obra a quatro partes se destina a ser interpretada por um coro formado exclusivamente por vozes masculinas adultas. Neste caso, tem de se recorrer ao desdobramento de uma mesma voz. Então, o conjunto poderia ficar dividido desta forma: tenor I, tenor II, baixo I e baixo II. Este processo, a que podemos chamar divisi, por analogia com o empregado na orquestra, é também aplicado quando o número de partes harmônicas é superior a quatro. No coro misto, por exemplo, as diferentes vozes ficarão divididas, dando origem a várias combinações, consoante a partitura estabeleça a distribuição por cinco, seis, sete ou mais partes reais. Existem também outras disposições corais, para além do coro misto a três vozes (soprano, tenor e baixo) e o coro a vozes iguais, exemplificado pelo coro de vozes masculinas. À combinação de mulheres e crianças dá-se o nome de coro de vozes brancas. Uma técnica coral de grandes proporções e possibilidades é a que conhecemos como duplo coro. Trata-se de dois corpos corais iguais e completos (de quatro vozes cada um) que, devido ao seu caráter autônomo, produzem um efeito especial quando são utilizados alternativamente ou de alguma outra forma. Um exemplo magistral de duplo coro é o que se encontra na Paixão segundo S. Mateus, de Bach.
Embora não respondam ao mesmo nível de exigência requerido para um solista, as vozes do coro devem ser extremamente cuidadas. Uma preparação musical e técnica intensa é condição indispensável para o bom funcionamento do conjunto. A seleção das vozes será feita com o maior rigor. Neste sentido, ter-se-á mais em conta o timbre do que a extensão. Da natureza das vozes dependerão o empastamento, a potência e a clareza de linhas. Daí que a produção das diferentes cordas (cada uma das vozes) de um coro deva corresponder mais ao caráter e colorido das vozes do que ao número de componentes delas. Do mesmo modo, e embora possa parecer paradoxal, o fator de intensidade num coro está diretamente relacionado com a maior quantidade de vozes empregadas. Na maior parte dos casos, um coro não muito numeroso, mas convenientemente preparado, terá maior capacidade de resposta quanto ao volume do que um maciço grupo coral vocalmente pouco satisfatório.
É óbvio que a preparação de um coro não acaba com uma adequada seleção de vozes. De fato, está tudo ainda por fazer. O conhecimento profundo das mais recônditas possibilidades da voz é outra das condições necessárias para uma boa interpretação. Esta, por sua vez, não atingirá o fruto desejável se não se tiver realizado um estudo exaustivo das idéias musicais contidas na partitura e se não se dispuser dos meios técnicos apropriados para a reprodução sonora delas. Por isso, o trabalho do coro compreenderá os aspectos de exatidão e segurança no ritmo e afinação, de ductilidade na articulação, precisão nos ataques e vocalizações, máxima compreensão do fraseio, etc. A arte do canto não é fácil. Implica não só a posse de dotes naturais, mas também uma educação racional do ouvido, da voz e da musicalidade. É preciso, como dizia Weber, “dominar o instrumento que a natureza nos deu, até conseguir que se submeta, voluntariamente e sem esforço aparente, a todas as possibilidades da execução”.
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