TENOR
No artigo anterior, falamos dos principais tipos vocais, estabelecidos de acordo com a tradição moderna. Tipos que, por sua vez, apresentam diversos subtipos, constituindo uma classificação que, partindo fundamentalmente do fator tímbrico, pode ser completada, clarificada e enriquecida com a divisão realizada com base na excitabilidade do nervo recorrente. Agora, vamos estudar os tipos vocais mais freqüentes hoje em dia e referiremos os que tiveram difusão e vigência em outras épocas.
A voz de tenor é a mais aguda entre os homens. As suas cordas vocais costumam medir entre 1,8 cm e 2,2 cm de comprimento. A sua tessitura pode ir, aproximadamente e segundo cada tipo de tenor, do ré2 ou dó2 ao ré4 ou dó4. O registro ou posição de peito estende-se mais ou menos, em condições ótimas até ao fá agudo (fá3), a partir do qual se produz a passagem. E é precisamente um tenor, o francês Gilbert Duprez (1806-1896), que é considerado o descobridor desta técnica, posta em prática ao cantar a difícil parte de Amoldo do Guilherme Tell, de Rossini. O compositor ficou tão desagradavelmente impressionado com a experiência, que classificou o som emitido pelo cantor como o de um galo a que se estão arrancando as penas e preferiu, para interpretar o papel, Louis Nourrit (1780-1831), expoente perfeito da tradição do falsete no bel canto. De qualquer modo, Duprez previa também o falsete no registro superior.
A tessitura é a parte da extensão de uma voz em que esta pode mover-se com mais comodidade na plenitude do seu rendimento. Extensão é o total de notas que uma voz pode emitir com maior ou menor dificuldade. Os números que se escrevem ao lado de cada nota correspondem à numeração progressiva por oitavas, tomando como centro o lá do diapasão ou 1á3, igual a 440 vibrações por segundo (que se medem em ciclos por segundo). Uma mesma nota, entoada por uma voz feminina e uma masculina, tem uma oitava de diferença, de acordo com o seu número de vibrações, em favor daquela. Daí que o lá3 do homem equivalha ao lá4 da mulher.
Classificação
Tomando por base a divisão tradicional em ligeiro, lírico e dramático, pode fazer-se, hoje em dia, uma outra mais ampla e pormenorizada:
Ligeiro. É uma voz mais aguda, fácil e aérea; e também a mais fraca e desprovida de mordente. O seu timbre, mesmo em plena voz, é, por vezes, quase branco. Nele combinam-se e chegam até a confundir-se as emissões a plena voz de cabeça, falsete e falsete reforçado. Voz não necessariamente extensa, mas adequada para as habilidades. A passagem situa-se perto do fá-fá sustenido3. Na Itália, também se deu a este tipo de tenor o nome de tenore di grazia, embora, na verdade, essa classificação possa corresponder a outros tipos de voz de tenor. Um tenor di grazia (isto é, com domínio do canto ligeiro, das sfumature ou matizes) não tem de ser necessariamente ligeiro pois também pode ser lírico-ligeiro ou apenas lírico, tipos que estudaremos em seguida. Um exemplo característico do papel de tenor ligeiro, que neste caso tem de ser di grazia é o Nemorino de O Elixir de Amor, de Donizetti. Tito Schipa foi um tenor ligeiro típico.
Lírico-ligeiro. Voz muito próxima da anterior, mas dotada de uma maior consistência, sobretudo na zona grave, e de maior impacto na aguda. Geralmente, o tenor lírico-ligeiro tem a amplitude e a excelência do lírico na zona inferior e, em especial, ao centro, no registro chamado médio, e a agilidade, a leveza, a facilidade do ligeiro na zona superior. Em regra, possui não só maior contundência nesta zona superior mas também maior extensão. A passagem fica situada próximo do fá. Este tipo de voz é o mais adequado para cantar o Ferrando de Così fan tutte, o Otávio de D. Juan ou o Tamino de A Flauta Mágica, o barão des Grieux de Manon ou o duque de Mântua de Rigoletto. Anton Dermota e Alfred Kraus podem ser considerados representantes deste tipo.
Lírico. É a voz mais freqüente de tenor, aquela que, em princípio, possui um maior equilíbrio entre os seus diferentes registros e a que consegue uma melhor fusão dos mesmos e, portanto, conta com maior homogeneidade. O centro é amplo e o agudo possui um indescritível brilho e vibração. É, provavelmente, o tipo de voz que maiores possibilidades tem quanto a repertório, uma vez que pode ficar bem no campo lírico-ligeiro, no ligeiro e também naquele que tem um caráter mais dramático. Um lírico pleno, com extensão e facilidade para a coloratura, conhecedor do estilo (características que não se encontram normalmente neste tipo vocal), seria um melhor Artur de Os Puritanos do que um lírico-ligeiro ou um ligeiro. Líricos, com muita flexibilidade na zona alta, deveriam ser o famoso Giovanni Rubini (1794-1854) e, provavelmente, o espanhol Julián Gayarre (1844-1890). Os papéis do chamado tenor lírico são também muito abundantes. No repertório alemão podemos citar o Max de Der Freischütz; no francês, o Romeu de Romeu e Julieta; no italiano, o Rudolfo de La bohème, que requer um mordente já bastante considerável. Um exemplo de lírico puro foi, no nosso século, Beniamino Gigli (1890-1957). Neste capítulo não pode esquecer-se o grande tenor português Tomás Alcaide (1901-1967).
Entre as vozes destes últimos anos, merece especial referência a do espanhol José. Carreras.
“Spinto”. A palavra “spinto” tem, em italiano, o significado literal de “ajudado”, “empurrado”. Na arte de canto, poderia traduzir-se por “reforçado”, ou seja, dotado de mais força e consistência. Uma voz eqüidistante do lírico puro e do dramático. Uma voz que, sob este aspecto, poderia definir-se como de lírico-dramática. Mas há muitos matizes e poderiam fazer-se numerosas exemplificações a esse respeito. Em primeiro lugar, porque se pode falar de vozes lírico-spinto, vozes originalmente líricas que foram ganhando em amplitude e em caráter ao longo do tempo. Como exemplo, poderíamos citar Giacomo Lauri Volpi, tenor muito lírico no início (que cantava partes di grazia) e cuja voz se foi ampliando ao longo da carreira, tendo chegado até a cantar Otello. Hoje em dia, esta denominação pode aplicar-se a Plácido Domingo, apesar do que de lírico tem a sua zona superior. Como parte paradigmática, poderíamos apontar a de Cavaradossi em Tosca, embora ela admita perfeitamente ser interpretada por um lírico simplesmente. Poderíamos também falar, dentro do capítulo que estamos a estudar, do tenor spinto puro, a que se poderia também chamar lírico-dramático. Pensemos no Radamês de Aida, no Pollione de Norma ou no Manrico de O Trovador. São vozes para cuja classificação se utiliza fundamentalmente um critério subjetivo, baseado em especial no timbre e na potência. São vozes bastante mais escuras, com um registro de peito considerável, dotadas de autêntico squillo (vibração, intensidade, sonoridade) na zona alta.
Poderíamos mencionar aqui o lendário Leo Slezak (1873-1946), embora fosse um tenor de possibilidades muito amplas, que iam do lírico ligeiro ao dramático, e, mais recentemente, Franco Corelli e, também, ainda que só pela cor, Carlo Bergonzi.
Dramático. É a voz de colorido mais sombrio e, geralmente, mais volumosa e potente entre as de tenor. Nela, a passagem situa-se perto do mi3, ligando-se, assim, de certo modo, com a estrutura vocal de um barítono lírico (o que não quer dizer que este possa aproximar-se daquele pelo caráter). Na Itália, chama-se também tenor di forza. Voz forte, contundente, em regra não demasiado hábil para obter efeitos de meia voz ou para “filar” (efeito de, com a mesma respiração, manter o som f> p ou p< f em notas sustentadas). A sua extensão não é normalmente excessiva: dificilmente atinge o dó4, atuando facilmente nas frases "amplas situadas no registro médio e no primeiro agudo. Tradicionalmente, dentro do repertório italiano, cita-se como exemplo clássico de papel para este tipo de voz o de Otello, ligado ao nome do cantor que o estreou: Francesco Tamagno (1850-1905), considerado, no seu tempo, o maior tenor di forza, dotado de uma potência fora de série no agudo (embora lhe faltassem matizes no lírico, para fazer uma interpretação completa da personagem verdiana). No nosso século, entre os italianos, também especialistas naquela parte, o nome mais conhecido é o de Mario dei Monaco. O famoso Enrico Caruso (1873-1921), apesar da voz suntuosa, não pode, no entanto, ser inserido neste capítulo mas sim, talvez, no do spinto. Apesar das características de barítono da sua zona inferior e do poder dos agudos, a linha de canto e as suas possibilidades expressivas, bem como a cor intrínseca, tornavam-no mais apto para papéis que não fossem declaradamente dramáticos. Não obstante, deixou gravados trechos exemplares de Otello.
O tenor dramático é muito importante no repertório alemão, onde se chama Heldentenor (tenor heróico). Exemplos característicos de papéis que podem requerer este tipo de voz são o Baco de Ariana em Naxos ou o Hüon de Oberon. Uma variante é a do tenor wagneriano, Wagnerheldentenor, um tenor dotado das qualidades referidas acima mas com maior amplitude, maior alento e maior resistência (não maior extensão). O volume é importante, tal como a potência, uma vez que tem de se defrontar com uma orquestra muito ampla. Os papéis de Siegfried, Tannhäuser ou Tristão exigem vozes deste tipo. Entre os maiores tenores wagnerianos, recordemos Carl Burriam (1870-1924), Erik Schmedes (1866-1931), Max Lorenz (1901-1975) e, por último, o grande Lauritz Melchior (1890-1974), talvez a voz wagneriana mais completa deste século, ampla, timbrada, flexível e extensa. Nos últimos tempos, há que mencionar Wolfgang Windgassen (19141974), não propriamente uma voz de Heldentenor, mas sim um grande artista. E, atualmente, considerando a crise de todas estas vozes, Jon Vickers.




